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Desenhos

Hey Arnold!: A Poética Melancolia e o Humanismo Inesquecível de Hillwood

14/09/2026 · 20 min de leitura

por Renato Souto Maior

Ficha técnica

Ano:
1996
Plataforma/Diretor:
Craig Bartlett / Nickelodeon
Gênero:
Animação / Comédia dramática

Nota do autor

10

Hey Arnold! é uma das obras mais sensíveis e humanas da animação televisiva dos anos 90. Combinando jazz, crônicas urbanas e profunda empatia pelas falhas humanas, a série permanece tocante e essencial para crianças e adultos.

1. Antes de Arnold: Nickelodeon nos Anos 90

1. Antes de Arnold: Nickelodeon nos Anos 90

Nos anos 1990, a Nickelodeon construía uma identidade visual e narrativa revolucionária para a televisão infanto-juvenil. Enquanto outras redes apostavam em produções genéricas criadas primariamente para vender brinquedos, a Nick abriu espaço para produções com vozes autorais fortes. Títulos como Rugrats, Doug, The Ren & Stimpy Show e Rocko’s Modern Life provaram que desenhos animados podiam explorar estética própria e humor peculiar.

Hey Arnold! surgiu exatamente no auge dessa era dos Nicktoons, mas trouxe uma proposta diferente. Enquanto a maioria das animações contemporâneas focava no absurdo, na agitação contínua, no exagero visual e no slapstick, a criação de Craig Bartlett desacelerou o ritmo. O objetivo principal parecia surpreendentemente simples e poético: contemplar crianças vivendo, convivendo e crescendo no espaço urbano.

2. Craig Bartlett Antes de Hey Arnold!

2. Craig Bartlett Antes de Hey Arnold!

Antes de dar vida ao menino de cabeça em formato de bola de futebol americano, o animador Craig Bartlett acumulatôu vasta experiência no meio audiovisual. Criado em Seattle, sua formação e interesse pela arte da animação o levaram a colaborar com grandes nomes do setor, incluindo trabalhos marcantes com Will Vinton, mestre na técnica de claymation (animação com massa de modelar). Bartlett também trabalhou na produção da consagrada série Pee-wee's Playhouse e em curtas-metragens da franquia A Penúltima Viagem e projetos do estúdio Will Vinton Studios.

Foi durante esse período criativo que os primeiros esboços de Arnold nasceram. O personagem não surgiu pronto como uma série de televisão tradicional de canal a cabo, mas passou por anos de testes, ideias visuais e pequenos experimentos narrativos até evoluir para a versão final.

3. Arnold Começou em Claymation

3. Arnold Começou em Claymation

Antes de estrear em 2D tradicional na Nickelodeon, Arnold fez sua primeira aparição pública em stop-motion. Entre 1988 e 1991, Craig Bartlett produziu três curtas-metragens independentes em claymation: Arnold Escapes from Church (1988), The Penny-Cleaner (1990) e Arnold Rides His Chair (1991).

Nesses curtas originais, Arnold já ostentava o terno de suéter com camisa xadrez saindo por baixo, o minúsculo boné e a marcante cabeça alongada. Contudo, sua personalidade era ligeiramente diferente: ele era mais sonhador, alimentava fantasias visuais ricas e vivia situações surreais em sua mente. A técnica em argila dava um ar tátil e curioso ao garoto, servindo de base para o desenvolvimento do personagem antes da transição para o desenho em papel.

4. Do Curta para a Nickelodeon

4. Do Curta para a Nickelodeon

Em 1993, a revista Simpsons Illustrated publicou tirinhas em quadrinhos de Arnold escritas por Bartlett. O interesse do público e a receptividade do conceito chamaram a atenção da equipe de desenvolvimento da Nickelodeon. Bartlett, junto com os roteiristas Steve Viksten e Joe Ansolabehere, desenvolveu o episódio piloto intitulado Arnold em 1994, exibido nos cinemas junto com o filme Harriet the Spy em 1996.

A resposta positiva garantiu a aprovação da série animada. Produzida pela Snee-Oosh, Inc. em parceria com a Nickelodeon Animation Studio, a série estreou oficialmente na televisão americana em 7 de outubro de 1996, apresentando uma narrativa urbana refinada e sensível para o público infantil.

5. Design e Personalidade de Arnold

5. Design e Personalidade de Arnold

O design visual de Arnold é inconfundível. Sua cabeça em formato de bola de futebol americano, o minúsculo boné azul flutuando entre os cabelos amarelos espetados e a jaqueta de suéter com a barra da camisa xadrez dobrada (lembrando uma saia ou kilt para os menos desatentos) tornaram o visual marcante.

O interessante no design de Arnold é o contraste direto entre sua aparência física singular e sua postura interna. Em meio ao caos da cidade e às excentricidades dos moradores, Arnold é o centro de equilíbrio. Ele é calmo, paciente, racional, extremamente observador e dotado de uma empatia genuína. Ele não precisa gritar ou ser a figura mais espalhafatosa do ambiente; sua força reside na capacidade de escutar e ponderar.

6. Um Protagonista Diferente

6. Um Protagonista Diferente

A estrutura narrativa de Hey Arnold! foge do modelo convencional de desenho animado. Arnold nem sempre é o motor do conflito da história. Em grande parte dos episódios, ele atua como o observador, o ouvinte ou o conselheiro que entra no drama pessoal de outro morador de Hillwood.

Essa escolha de roteiro permite que a série expanda seu universo e construa um vasto ecossistema social. Arnold funciona como a ponte que conecta diferentes idades, classes e dilemas, fazendo com que o espectador conheça os cantos e os habitantes da cidade através do olhar compreensivo do garoto.

7. Hillwood: Uma Cidade Viva

7. Hillwood: Uma Cidade Viva

O cenário onde a série se passa, a fictícia cidade de Hillwood, é um dos elementos mais bem construídos da animação. Craig Bartlett inspirou-se em várias cidades norte-americanas para moldar o ambiente de Hillwood, unindo a arquitetura e a atmosfera de Seattle, Portland, Brooklyn (Nova York) e Chicago.

Hillwood transmite uma sensação de lugar real e vivo. A cidade conta com uma rede de metrô com estações pichadas, linhas de ônibus antigos, prédios com escadas de incêndio de ferro, becos estreitos, lojas de bairro, parques com folhas secas caindo, terrenos baldios e pontes metálicas. Não é um cenário limpo ou idealizado; é uma metrópole com marcas de uso e passagem de tempo, onde as coisas parecem continuar acontecendo mesmo quando a câmera não está focada nelas.

8. O Pensionato dos Avós

8. O Pensionato dos Avós

A casa de Arnold não é uma residência unifamiliar tradicional suburbana, mas sim a Sunset Arms, um pensionato administrado por seus avós maternos. Esse espaço é uma verdadeira coleção de adultos excêntricos convivendo sob o mesmo teto.

Entre os moradores fixos estão Mr. Hyunh, um imigrante vietnamita quieto e melancólico; Oskar Kokoshka, um desempregado preguiçoso e vigarista vindo do leste europeu, acompanhado por sua batalhadora esposa Suzie; Ernie Potts, um operador de demolições baixinho e durão; e o misterioso Mr. Smith, que vive isolado em seu quarto. Crescer nesse ambiente força Arnold a lidar diariamente com as complexidades, falhas e frustrações do mundo adulto.

9. Grandpa Phil e Grandma Gertie

9. Grandpa Phil e Grandma Gertie

Apesar de não ter os pais presentes, Arnold desfruta de uma estrutura familiar rica em afeto prestada por seus avós.

Grandpa Phil (Phil Shortman) é o avô de espírito jovial, veterano de guerra, contador de histórias exageradas e repleto de ditados duvidosos. Embora pregue peças e tente manter uma fachada de esperteza, Phil ama profundamento o neto e oferece conselhos valiosos nos momentos cruciais.

Grandma Gertie (Gertie Shortman), apelidada carinhosamente de "Pookie", é completamente imprevisível. Ela vive fantasiada assumindo papéis de artes marciais, pirata ou exploradora, demonstrando uma vitalidade física invejável. Por trás da excentricidade, Gertie possui uma intuição apurada e um forte senso de proteção familiar.

10. E os Pais de Arnold?

10. E os Pais de Arnold?

O grande mistério que paira sobre a vida do garoto é o paradeiro de seus pais, Miles e Stella Shortman. Miles era um médico antropólogo e Stella uma botânica e pintora. Em episódios marcantes da série, é revelado que ambos partiram para uma expedição humanitária na selva de San Lorenzo quando Arnold ainda era um bebê recém-nascido e nunca mais retornaram.

A ausência dos pais não é tratada com desespero contínuo, mas sim como uma dor silenciosa e melancólica. Arnold guarda os poucos pertences deixados por eles em seu quarto e mantém a esperança madura de um dia compreender o que realmente aconteceu naquela missão.

11. Gerald: Melhor Amigo de Verdade

11. Gerald: Melhor Amigo de Verdade

Gerald Johanssen é a combinação perfeita de lealdade, estilo e maturidade para o protagonista. Vestindo sua clássica blusa vermelha com o número 33 e exibindo um corte de cabelo estilo hi-top fade, Gerald é a figura mais popular e confiante da turma da quarta série.

Gerald desempenha o papel fundamental de guardião da tradição oral da cidade. É ele quem narra as lendas urbanas de Hillwood para as outras crianças, sempre com tom dramático e postura solene. Além disso, Gerald tem sua própria dinâmica familiar com seus pais, seu irmão mais velho Peter e sua irmãzinha Timberly, enfrentando conflitos reais de rivalidade fraterna e expectativas familiares.

12. Helga Pataki: Muito Mais que uma Valentona

12. Helga Pataki: Muito Mais que uma Valentona

Helga G. Pataki é uma das personagens mais ricas, complexas e bem escritas da história das animações televisivas. Na superfície, Helga apresenta-se como a valentona da escola: violenta, sarcástica, ruidosa, mandona e pronta para insultar Arnold chamando-o de "Football Head" (Cabeça de Futebol americano).

No entanto, a série constantemente revela a vida interior da garota. Helga é secretamente uma poetisa brilhante, capaz de compor monólogos dramáticos sobre seus sentimentos por Arnold. Em seu armário e no quarto, ela mantém altares construídos com chicletes usados e fotos do garoto. A agressividade externa de Helga é a armadura defensiva que ela construiu para esconder uma extrema vulnerabilidade emocional.

13. A Família Pataki Explica Muita Coisa

13. A Família Pataki Explica Muita Coisa

O comportamento agressivo de Helga é compreendido ao observar a rotina em sua casa. Seu pai, Bob Pataki ("Big Bob"), é um próspero e narcisista comerciante de bipers, autoritário, que mal lembra o nome correto de Helga, chamando-a frequentemente de "Olga".

Sua mãe, Miriam Pataki, é retratada como uma mulher triste, emocionalmente distante e constantemente exausta, que passa o dia fazendo "vitaminas" no liquidificador e dormindo no sofá — uma forma sutil como os roteiristas abordaram a depressão e a dependência química no contexto de um desenho infantil. Por fim, a irmã mais velha, Olga Pataki, é a garota perfeita, premiada na faculdade, recebendo toda a atenção e adulação dos pais. Ignorada em casa, Helga aprendeu a gritar para não ser apagada.

14. Helga Ama Arnold Porque Ele a Enxergou

14. Helga Ama Arnold Porque Ele a Enxergou

O sentimento obsessivo e genuíno de Helga por Arnold tem uma origem dolorosa e bonita. Em flashbacks mostrados na animação, é revelado o primeiro dia de pré-escola das personagens. Naquele dia chuvoso, Helga caminhava sozinha sob a chuva, coberta de lama, ignorada pelos pais que estavam ocupados paparicando Olga.

Ao chegar à pré-escola, Arnold foi a primeira pessoa a reparar nela, oferecendo seu guarda-chuva, dividindo seu lanche e elogiando o laço rosa em seu cabelo. Helga não se apaixonou por uma idealização fútil; ela guardou afeto por ter sido enxergada e tratada com gentileza pela primeira vez na vida.

15. Arnold e Helga: Sentimentos Reais

15. Arnold e Helga: Sentimentos Reais

A dinâmica entre os dois personagens é conduzida com enorme sensibilidade. Não se trata de uma comédia romântica adulta adaptada para crianças, mas do retrato sincero de dilemas emocionais infantis. Helga luta constantemente contra a própria incapacidade de demonstrar afeto sem parecer fraca perante seus colegas.

Por sua vez, Arnold enxerga os arroubos de raiva de Helga com paciência. Embora muitas vezes incomodado pelas atitudes brutas da garota, em diversos momentos ele percebe vislumbres do bom coração que ela tenta esconder a todo custo.

16. A Turma da Escola

16. A Turma da Escola

A Escola Primária 118 (PS 118) abriga uma das turmas mais diversificadas e humanas da ficção animada. Cada aluno possui traços marcantes que vão muito além de meros estereótipos acadêmicos ou sociais.

O grupo forma uma minissociedade composta por crianças de diferentes origens econômicas, origens étnicas e temperamentos, criando um ambiente dinâmico onde os problemas escolares refletem dilemas cotidianos do crescimento.

17. Phoebe e a Amizade com Helga

17. Phoebe e a Amizade com Helga

Phoebe Heyerdahl é a melhor amiga de Helga e seu contraponto perfeito. De ascendência nipo-americana, Phoebe é quieta, altamente intelectual, educada e leal. Ela é uma das raríssimas pessoas que entendem a dor de Helga e enxergam a verdade por trás da fachada de valentona.

A amizade entre as duas aborda momentos de desequilíbrio, onde Phoebe precisa aprender a impor seus próprios limites perante a postura dominante de Helga, amadurecendo o respeito mútuo entre ambas.

18. Os Garotos da PS 118

18. Os Garotos da PS 118

Os garotos da PS 118 revelam camadas emocionais ao longo das temporadas:

  • Harold Berman: Começa como o valentão físico da turma, mas revela-se um garoto inseguro, sensível quanto ao seu peso e terno em relação aos animais e à sua família judaica.
  • Sid: Notável por seu chapéu virado e botas de couro, Sid lida constantemente com paranoias, medos irracionais e a ansiedade de tentar parecer mais legal do que realmente é.
  • Stinky Peterson: Vindo de uma zona rural, Stinky é alto, ingênuo e tem um sotaque caipira marcante. Episódios focados nele tratam da aceitação de suas raízes e da busca por autoestima.
  • Eugene Horowitz: É o garoto mais azarado da escola, vítima constante de acidentes bizarros. Apesar disso, Eugene carrega um otimismo inabalável, recusando-se a deixar o desânimo tomar conta de sua vida.

19. Rhonda, Lila, Curly e Outros Alunos da PS 118

19. Rhonda, Lila, Curly e Outros Alunos da PS 118

  • Rhonda Wellington Lloyd: A garota rica e obcecada por moda e status social, que frequentemente precisa aprender lições sobre empatia e humildade.
  • Lila Sawyer: A garota vinda do interior, gentil e educada, por quem Arnold desenvolve uma forte paixão não correspondida no mesmo nível de intensidade.
  • Thaddeus "Curly" Gammelthorpe: O garoto de óculos completamente imprevisível e excêntrico, propenso a explosões dramáticas quando se sente contrariado.
  • Brainy: O garoto de óculos que respira pesado atrás de Helga quando ela declama seus poemas secretly, levando socos imediatos.
  • Nadine e Sheena: Amigas que complementam a diversidade do grupo, com Nadine apaixonada por insetos e natureza.

20. Professores e Adultos da PS 118

20. Professores e Adultos da PS 118

Os adultos encarregados da educação na PS 118 também são retratados com imperfeições e humanidade. O professor da turma, Mr. Robert Simmons, destaca-se por sua abordagem pedagógica progressista, focada na arte, na expressão emocional e na inclusão dos alunos. Ele é um homem sensível que genuinamente se importa com o bem-estar daquelas crianças.

Em contraste, o Diretor Wartz adota uma postura burocrática e rígida, enquanto o Treinador Wittenberg lida com seus próprios problemas de temperamento e frustrações pessoais. A série mostra que os adultos muitas vezes estão tão perdidos quanto as próprias crianças.

21. Pigeon Man e os Adultos Solitários

21. Pigeon Man e os Adultos Solitários

Hey Arnold! destacou-se por olhar para as margens da cidade. Vários episódios trazem histórias focadas em figuras urbanas solitárias e marginalizadas.

O caso mais emblemático é o de Pigeon Man (O Homem dos Pombos). Morando no topo de um prédio abandonado cercado por aves, ele escolheu se afastar da sociedade após ser desiludido pelas pessoas. Quando Arnold tenta reintroduzi-lo ao convívio humano, a maldade de outras crianças destrói seu santuário. Pigeon Man deixa uma das frases mais marcantes da animação ao explicar que entende os pombos porque eles são leais, e se despede voando preso aos seus pássaros. O episódio aborda rejeição, isolamento e compaixão de forma inesquecível.

22. As Lendas Urbanas de Hillwood

22. As Lendas Urbanas de Hillwood

As histórias contadas por Gerald alimentavam a mitologia folclórica do bairro. Entre as lendas mais memoráveis estão:

  • Stoop Kid (O Garoto da Escada);
  • The Haunted Train (O Trem Fantasma, da Estação 13);
  • Four-Eyed Jack (O fantasma do antigo morador do pensionato);
  • Headless Cabbie (O Taxista Sem Cabeça);
  • Monkeyman (O herói urbano fantasiado que protege a noite);
  • Sewer King (O Rei dos Esgotos que reina sob os bueiros de Hillwood).

Essas narrativas davam à infância na cidade uma dimensão de mistério e aventura, onde cada esquina ou túnel antigo parecia esconder um segredo fantástico.

23. Stoop Kid e a Zona de Conforto

23. Stoop Kid e a Zona de Conforto

O episódio sobre Stoop Kid é um exemplo clássico da capacidade de escrita da série. Para o público infantil, é a divertida história de um garoto intimidante que vive sentado na escadaria de um prédio e se recusa a pisar na calçada.

Para o espectador adulto, o episódio funciona como uma metáfora límpida sobre agorafobia, medo do desconhecido e a zona de conforto. Com o incentivo empático de Arnold, Stoop Kid reúne coragem para dar o primeiro passo fora da escada, descobrindo que o mundo exterior, embora assustador, é vasto e cheio de possibilidades.

24. O Natal do Sr. Hyunh

24. O Natal do Sr. Hyunh

O especial Arnold’s Christmas (O Natal de Arnold) figura entre os episódios mais emocionantes da televisão nos anos 90. No episódio, é revelada a história do Sr. Hyunh durante o fim da Guerra do Vietnã. Em meio ao caos da evacuação de sua cidade (referência clara à Operação Babylift de 1975), ele tomou a decisão dolorosa de entregar sua filha bebê Mai a um soldado americano em um helicóptero para salvar sua vida, perdendo seu paradeiro por décadas.

Arnold dedica seu Natal a tentar localizar a filha de Hyunh na cidade. No ápice da história, Helga abre mão do presente de Natal que tanto desejava — um par de botas de cano alto da moda — para ajudar a encontrar a jovem. O reencontro entre pai e filha acontece sem que Arnold ou Hyunh saibam do sacrifício anônimo feito por Helga. O episódio tratou de trauma de guerra, imigração e altruísmo puro sem perder o ponto de vista infantil.

25. Os Episódios Mais Melancólicos

25. Os Episódios Mais Melancólicos

A série coleciona episódios com forte carga melancólica e reflexiva:

  • Helga on the Couch (Temp. 4): Helga conversa com a Dra. Bliss e revela a origem de seus traumas familiares.
  • Parents Day (Temp. 4): Arnold enfrenta o sentimento de vazio na competição escolar entre pais e filhos.
  • The Journal (Temp. 5): Arnold encontra o diário de seu pai contando suas expedições e o nascimento do filho.
  • Pigeon Man (Temp. 1): A lição sobre solidão e desilusão humana no topo de um edifício.
  • Arnold’s Valentine (Temp. 1): O desapontamento amoroso de Arnold ao idealizar Lila ou a professora Cecile.
  • Dino Checks Out (Temp. 3): O ídolo musical idoso de Grandpa Phil tenta forçar um retorno trágico.
  • Veterans Day (Temp. 5): Phil e o pai de Gerald compartilham memórias dolorosas de guerra.
  • Grandpa’s Packard (Temp. 3): A perda de um bem sentimental estimado e a inevitabilidade da mudança.
  • Helga’s Parrot (Temp. 3): Um papagaio acidentalmente recita os poemas secretos de Helga pela cidade.
  • Chocolate Boy (Temp. 5): Uma metáfora direta e perturbadora sobre vício e privação emocional.
  • Oskar Gets a Job (Temp. 3): O analfabetismo funcional em adultos e o peso da preguiça crônica.
  • Mr. Hyunh Goes Country (Temp. 3): A exploração comercial da arte versus a autenticidade do sentimento.

26. "Helga on the Couch" e Crianças Difíceis

26. "Helga on the Couch" e Crianças Difíceis

No episódio Helga on the Couch (Helga no Sofá), a psicóloga Dra. Bliss visita a escola e passa a atender Helga. Em uma sessão marcada por sensibilidade, o roteiro desmorona a fachada de agressividade da garota.

Helga fala sobre a sensação de invisibilidade perante os pais, o peso da sombra da irmã Olga e o refúgio amoroso que encontrou na figura de Arnold. O episódio não perdoa os comportamentos destrutivos de Helga, mas dá a eles um contexto humano profundo. Mostra que crianças difíceis muitas vezes carregam dores difíceis de nomear.

27. Jazz e Atmosfera Urbana

27. Jazz e Atmosfera Urbana

A identidade sonórica de Hey Arnold! é inseparável de sua atmosfera. Composta pelo músico Jim Lang, a trilha sonora é dominada por composições de jazz urbano, usando saxofone, piano elétrico, contrabaixo acústico e percussões suaves.

A música confere ao desenho um tom maduro, tranquilo e por vezes melancólico. Cenas de Arnold caminhando pelas ruas de Hillwood sob a luz dos postes ou no teto de seu quarto enquanto a chuva cai ganham um contorno poético raro em animações voltadas para o público infantil.

28. A Produção e a História Incompleta

28. A Produção e a História Incompleta

A série contou com 5 temporadas e 100 episódios produzidos entre 1996 e 2004. Ao longo dos anos, o enredo evoluiu até o episódio duplo The Journal, que foi ao ar como o final da quinta temporada. Nele, Arnold encontra o diário de seu pai com um mapa indicando o local onde os pais desapareceram na selva.

Em 2002, a Nickelodeon lançou nos cinemas Hey Arnold!: The Movie, longa-metragem focado na luta da turma para salvar o bairro contra uma corporação gananciosa. No entanto, o filme não encerrava o mistério dos pais. Devido a divergências entre Craig Bartlett e o estúdio na época, o projeto do segundo filme planejado (The Jungle Movie) foi cancelado, deixando os fãs sem uma resposta por mais de uma década.

29. The Jungle Movie, Reencontro e Legado

29. The Jungle Movie, Reencontro e Legado

Após anos de campanhas movidas pela nostalgia dos fãs, a Nickelodeon aprovou a produção de Hey Arnold!: The Jungle Movie, lançado em 2017 como um telefilme especial. Ambientado logo após o término da série original, o filme leva a turma da PS 118 para San Lorenzo.

O filme encerra com maestria as pontas soltas: Arnold finalmente reencontra seus pais vivos (que estavam em um estado de sono profundo provocado por uma doença tropical e são curados), e Helga finalmente recebe o reconhecimento afetivo de Arnold, culminando na confirmação do sentimento entre os dois. Hey Arnold! envelheceu impecavelmente porque suas histórias nunca dependeram de modismos passageiros, mas sim de relações humanas universais.

30. Exibição no Brasil e Conclusão

30. Exibição no Brasil e Conclusão

No Brasil, Hey Arnold! marcou época ao ser exibido primariamente pelo canal pago Nickelodeon Brasil a partir do final dos anos 90, além de ter chegado à TV aberta por meio da Band (no bloco Band Kids) e da TV Globo. A recepção no país foi calorosa, construindo uma legião de fãs que acompanhavam diariamente as desventuras da turma da PS 118 no início dos anos 2000.

Ao olhar para trás, a imagem síntese da série continua sendo a janela do quarto de Arnold. Localizado no sótão do pensionato, o quarto tinha um teto de vidro transparente com vista direta para o céu e para os prédios de Hillwood.

Daquele quarto, Arnold olhava para o mundo. Ele vivia cercado por adultos excêntricos, não tinha os pais por perto, lidava com lendas urbanas contadas por Gerald e com os gritos de uma garota que o agredia para esconder o amor que sentia. E, ainda assim, o desenho nunca foi desesperançoso. Arnold ensinou gerações a prestar atenção nos outros, a escutar e a entender que por trás de cada figura difícil na cidade existe uma história esperando para ser ouvida.

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